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Por que a China investe tanto no Brasil?

Aportes estão em várias áreas, desde tecnologia até portos; há espaço para mais investimentos, diz Conselho Empresarial Brasil-China

Por que a China investe tanto no Brasil?
Por que a China investe tanto no Brasil? (Foto: Reprodução)

Um levantamento do Instituto Internacional para Estudos Estratégicos revelou que, até 2022, a China realizou investimentos em mais de 170 países. O dado reforça a iniciativa de ampliar a presença dos chineses em outras regiões do mundo. Aqui no Brasil, o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) destaca os investimentos em infraestrutura, como portos e ferrovias, e indica que a medida faz parte de uma estratégia de maior controle sobre o escoamento de produtos agrícolas. Confira a conversa que tive com o diretor de conteúdo do CEBC, Tulio Cariello, sobre o tema.




Há quem diga que a China está “comprando” o Brasil, seja pela dependência que a gente tem deles como clientes para as nossas exportações, seja pelos crescentes investimentos aqui. Você concorda?


Não, eu acho que isso é realmente algo que está muito fora da realidade. Inclusive porque os investimentos chineses que entram aqui no Brasil eles operam de acordo com a legislação brasileira e, em muitos casos, eles são muito benéficos para o Brasil. Primeiro porque alguns investimentos desses são, de fato, greenfield. Ou seja, investimentos que são feitos do zero que incluem, por exemplo, a construção de uma nova fábrica de algum produto específico que naturalmente dinamiza muito a relação econômica no local onde está sendo feito aquele investimento porque você vai precisar de matéria prima, você vai precisar contratar novos trabalhadores. E, em outros casos, essas empresas chinesas quando vem para o Brasil, elas compram empresas brasileiras que, em muitos casos, estão em dificuldades financeiras, o que acaba fazendo com que elas mantenham empregos aqui no Brasil e não só gerando novos empregos. Ou seja, eu acho que é uma questão que a gente tem que ver como uma parceria estratégica que funciona muito para a China. Porque de uma forma ou de outra eles estão lucrando também com esses investimentos aqui, e funciona muito para o Brasil, porque a gente está, de uma forma ou de outra, dinamizando a nossa economia, a gente está trazendo tecnologia de fora muitas vezes. Nessa área do agro, por exemplo, os investimentos da Long Ping que eu comentei nessa área mais biotecnologia, eu acredito que são muito promissores também para a relação bilateral. A questão também dos investimentos da Cofco que acabam trazendo toda essa questão ligada a infraestrutura, escoamento de produção, armazenamento. São, sem dúvida alguma, investimentos que têm muito a acrescentar para os dois lados. Na verdade, não vejo uma relação assim de dependência ou compra do Brasil como costuma ser falado, não.
Você vê algum risco importante no sentido do chinês eventualmente decidir e buscar fornecimento em outras áreas como a África em algum momento ao longo da história e abandonar gradualmente essas compras do Brasil?
Eu acredito que existe, sim, esse risco. Inclusive porque a China tem buscado outros parceiros, outros fornecedores no exterior, buscado, por exemplo, novos fornecedores na própria África, na própria Ásia e até mesmo na Europa. A China tem buscado aumentar também a produção de alguns itens, algumas commodities domesticamente. Isso é o caso muito claro, por exemplo, na área de carnes. É muito curioso porque a gente vê que o Brasil vende muita carne para a China, mas a realidade é que a China é quase autossuficiente, por exemplo, na carne de porco e na carne de frango. Então, o que o Brasil exporta para a China muitas vezes não chega a 1% do que de fato é consumido no país. É realmente uma relação que tem que ser vista a longo prazo. Os chineses têm feito isso porque tem consciência de que não pode depender tanto de um ou dois parceiros no fornecimento de commodities, inclusive porque o Brasil é um dos poucos países no mundo que têm essa envergadura e toda essa produtividade, capacidade de exportação durante todo o ano. A gente tem muito mais safras, por exemplo, do que outros países que estão mais no hemisfério norte, por exemplo, como é o caso dos Estados Unidos. Mas, o fato é que isso é um trabalho que a China tem feito, de buscar evitar essa dependência excessiva do Brasil. Eu acho que a gente tem que pensar isso do nosso lado também. Para o futuro, a China, naturalmente, vai continuar sendo o nosso principal destino de vendas, por exemplo, de soja e carnes, eu não vejo isso mudando. Mas o fato é que a gente precisa, sim, buscar novos parceiros no exterior. Acredito que a própria África é um continente que oferece grandes oportunidades. Inclusive, a imagem do Brasil na África, em geral, é muito positiva. A gente tem capacidade de exportar para o exterior, para a própria Ásia de uma forma geral, países emergentes do continente asiático, e buscar outros mercados além da China para evitar que essa dependência se aprofunde.


Os bancos chineses estão avançando pelo mundo? Como esse movimento é compreendido por vocês do ponto de vista de empréstimos para diferentes setores, entre eles o agro, e até um avanço da circulação do yuan, que essa é uma ambição inclusive da China, não?


É, exatamente. No Brasil a gente tem, de fato, a presença de alguns dos maiores bancos chineses, mas eu acredito que a relação do Brasil com a China nessa área, ela é muito mais voltada para a questão do investimento do que do financiamento. A gente não tem muito financiamento chinês aqui. Mas, de fato, eu acho que para a área do agro, a questão do financiamento é muito promissora no sentido de que a gente pode buscar mais parcerias e financiamento verde no caso. A China é um país agora que tem investido muito na questão de transição energética, eles têm uma meta muito ambiciosa de descarbonização, ou seja, até 2060 eles querem ser neutros em carbono. Isso reflete muito também nas ações da China no exterior. Então o Brasil, que é um país que já tem essa questão da tecnologia do agro bem desenvolvida, um dos países que mais investe nessa área, é uma referência mundial poderia atrair mais financiamento para além dos investimentos também, claro, como eu comentei nessa área, por exemplo, de carne carbono neutro, agricultura de baixo carbono são todos setores que têm muito potencial para atrair parcerias.



  • Por Kellen Severo
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  • 01/04/2024 10h00