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Seu corpo sofre com barulho sem você perceber: veja como se proteger agora

Entenda como o excesso de ruído mexe com o cérebro, o sono e o coração e quais atitudes simples ajudam a preservar seus ouvidos e sua saúde, segundo Genaldo Vargas

Seu corpo sofre com barulho sem você perceber: veja como se proteger agora
Seu corpo sofre com barulho sem você perceber: veja como se proteger agora (Foto: Reprodução)

.O ouvido é um dos órgãos mais complexos e sensíveis do corpo humano. É composto por três partes: ouvido externo: a orelha (pavilhão auricular) coleta o som e o envia para o canal auditivo, que leva o som ao ouvido médio. No ouvido médio, o tímpano transforma os sons em vibrações, que são transferidas para o ouvido interno. Este, por sua vez, envia esses sinais da cóclea para o cérebro. É aí que podem começar os problemas.



O que o barulho faz com o cérebro e o estresse

Ambientes barulhentos ativam nosso sistema nervoso simpático, fazendo com que o corpo libere mais cortisol, o famoso hormônio do estresse. Isso significa mais ansiedade e uma sensação constante de alerta, como se estivéssemos sempre preparados para o perigo.

O barulho dos vizinhos, os sons do trânsito, música alta ou ruídos inesperados podem ser muito incômodos. Para cerca de 40% da população que tem sensibilidade aos ruídos, essa condição vai além de uma simples irritação: ela gera uma reação no cérebro que causa estresse, ansiedade e perturba a concentração diária.

A neurociência entende o barulho como um estímulo sensorial, mas, dependendo do volume e da duração, ele pode ser um estressor biológico. Ou seja, não é apenas algo que ouvimos: ele provoca respostas no cérebro e em vários sistemas do corpo. Vamos ver como isso acontece:

Quando um som chega ao ouvido, ele é transformado em sinais elétricos e enviado ao córtex auditivo do cérebro, que analisa a intensidade do som, a frequência (grave ou agudo), a localização de onde vem e o significado (fala, música, perigo etc.). Se o som é previsível e organizado, o cérebro geralmente o interpreta como neutro ou agradável. Se é irregular, imprevisível ou alto, tende a ser percebido como ruído, e entra em ação a amígdala cerebral (que é o “porteiro”, “guarda” e “corneteiro” que avalia e organiza a sobrevivência do organismo e aciona o resto do corpo).

Quando ela detecta algo que considera perigoso, aciona respostas fisiológicas imediatas. Mesmo que conscientemente saibamos que não há perigo (por exemplo, no trânsito agitado das nossas cidades), o cérebro pode reagir automaticamente. E, quando reage automaticamente, ativa o eixo hormonal chamado hipotálamo–hipófise–adrenal, que libera hormônios como o cortisol (tão falado aqui) e a adrenalina. Quando isso acontece, sentimos o coração disparar, a pressão subir, ficamos em estado de alerta e, por isso, é difícil relaxar. Qualquer faísca pode virar um incêndio.

Por isso, ambientes muito barulhentos podem gerar estresse crônico, causando redução da concentração, fadiga mental e mau desempenho no que estiver fazendo. Não bastassem esses transtornos todos acordados, ao dormir, o cérebro continua ligado nos sons que passam pelo ouvido e podem despertar a pessoa, prejudicando o ritmo circadiano, o ritmo do sono. Sons noturnos, mesmo que não causem despertar completo, fragmentam e reduzem o sono profundo, comprometendo o descanso reparador. Isso afeta a imunidade, o humor, a memória, a capacidade de autorregulação e a recuperação física. A pessoa acorda cansada e de mau humor.

Os sinais de que o ruído já está cobrando um preço

Alguns dos problemas causados por excesso de ruído: Perda auditiva. Tinnitus: sensação de zumbido ou chiado nos ouvidos, que pode ser temporário ou persistente. Hipersensibilidade sonora (hiperacusia): desconforto ou dor com sons que antes pareciam normais. Distúrbios do sono e estresse. Dano metabólico e vascular: sim, a exposição prolongada a ruídos intensos danifica o sistema cardiovascular. Em crianças e adolescentes, pode ocorrer impacto no desenvolvimento da audição e na aprendizagem, como em ambientes escolares barulhentos, por exemplo.


Para não sofrer tanto, o cérebro criou uma pequena compensação, que não recomendo testar: A exposição repetida ao mesmo som faz o cérebro reagir menos a ele e, em alguns casos, até se acostumar. Chama-se habituação. É o que pode acontecer ao morar perto de rua movimentada ou de aeroportos, por exemplo. Mas isso é só uma conveniência e não quer dizer que o corpo não esteja sofrendo com os estímulos sensoriais.


O cérebro humano prefere sons previsíveis e suaves. Sons irregulares e abruptos são interpretados como possíveis sinais de perigo – por isso, buzinas ou obras incomodam tanto. Considera-se que até 70 decibéis (dB) é relativamente seguro para exposição prolongada. Acima disso, em baladas, no carnaval e em algumas academias, sons acima de 85 dB podem causar danos significativos. Uma regra prática: se é preciso elevar a voz para conversar com alguém a um metro de distância, o ambiente provavelmente está em um patamar de ruído preocupante.




Fones de ouvido


Fones de ouvido podem ser tanto protetores quanto prejudiciais. Eles ajudam ao reduzir o ruído externo e melhorar o foco, especialmente os modelos com cancelamento de ruído, que permitem ouvir conteúdo em volumes mais baixos. Contudo, tornam-se problemáticos quando usados em volume excessivo por longos períodos, sem pausas, ou para mascarar ambientes já muito ruidosos. A regra 60/60 é uma boa diretriz: usar até 60% do volume máximo por até 60 minutos seguidos, com pausas. Sintomas como zumbido ou ouvido abafado após o uso indicam volume excessivo.


Existe ainda a misofonia, que é uma condição na qual a pessoa reage de forma intensa e negativa a sons produzidos por outros seres humanos e que, para a maioria das pessoas, são comuns e insignificantes, como: mastigação, respiração, estalar de dedos, clique de caneta, barulho de língua ou saliva. Para quem tem misofonia, o problema não é o volume, mas o tipo de som, que pode acionar gatilhos emocionais fortes. Estima-se que entre 10% e 20% das pessoas tenham algum grau de sensibilidade a esse tipo de ruído.


Como prevenir (sem mudar sua vida do avesso)

Prevenção e cuidados: A prevenção envolve medidas práticas: reduzir a exposição – evitar ambientes excessivamente ruidosos ou limitar o tempo neles. Dar um “descanso” aos ouvidos ao longo do dia. Manter o volume de fones e outros dispositivos em níveis baixos. Usar protetores em shows, obras ou ambientes industriais. Se necessário, em casa e no trabalho, usar cortinas, tapetes e vedação para reduzir a propagação do som. Isolamento acústico.


Sinais de alerta como zumbido persistente, dificuldade de compreensão da fala, sensação frequente de ouvido tampado ou irritabilidade intensa em ambientes barulhentos devem motivar a busca por avaliação profissional, como um otorrinolaringologista. Em suma, o barulho é um fator ambiental com impactos concretos na saúde física e mental. A conscientização sobre seus riscos, a adoção de limites seguros e a implementação de medidas preventivas são essenciais para promover o bem-estar e a qualidade de vida em uma sociedade cada vez mais ruidosa.


No final, uma boa notícia


Para compensar ruídos e barulhos que adoecem, existe um fenômeno oposto, o ASMR (Autonomous Sensory Meridian Response), que ativa a área de recompensa e prazer, chamada núcleo accumbens, e libera dopamina quando ouvimos música relaxante ou que nos emocione, podendo sincronizar processos fisiológicos no corpo.


Isso influencia regiões como o córtex pré-frontal, responsável pela regulação emocional e tomada de decisão. Como resultado, temos a redução da ansiedade, maior foco e atenção, sensação de bem-estar. Esse é um dos motivos dos estudos de musicoterapia. O ASMR também ativa o sistema nervoso parassimpático, responsável pelo estado de descanso e recuperação do corpo, que produz: redução da frequência cardíaca. Diminuição da ansiedade. Relaxamento muscular. Maior facilidade para dormir e manter o sono.


Em uma sociedade marcada por excesso de estímulos, cuidar da paisagem sonora tornou-se também uma forma de cuidar da saúde integral.

Genaldo Vargas – Consultor para Saúde Mental da Gerson Lehrman – NY. Guidepoint – Londres. Conselheiro da Fundação da Associação Baiana de Medicina. Psicanalista. Escritor. Palestrante. Estudou Neurociências pela Harvard University e a Ciência da Felicidade pela UC Berkeley.


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