cover
Tocando Agora:


MP investiga Geddel sob suspeita de receber R$ 1 mi na trama da fuga de líder do CV

Quase uma década após Geddel ser condenado pelo STF, o ex-ministro vê seu nome citado na Operação Duas Rosas

MP investiga Geddel sob suspeita de receber R$ 1 mi na trama da fuga de líder do CV
MP investiga Geddel sob suspeita de receber R$ 1 mi na trama da fuga de líder do CV (Foto: Reprodução)

O Ministério Público da Bahia investiga o ex-deputado federal Geddel Vieira Lima (MDB) por suspeita de recebimento de propina de R$ 1 milhão em meio a uma trama que levou à fuga do traficante Ednaldo Pereira de Souza, o “Dadá”, apontado como liderança do Primeiro Comando de Eunápolis, braço do Comando Vermelho no sul do Estado.



Diálogos recuperados pelos promotores a partir da extração dos celulares de dois alvos da Operação Duas Rosas revelam citações a Geddel, chamado de “chefe” pelos interlocutores – o também ex-deputado Uldurico Júnior e a ex-diretora do presídio de Eunápolis Joneuma Silva Neres. Ela fechou acordo de delação premiada e confessou sua participação na fuga de “Dadá” e outros 15 detentos em 12 dezembro de 2024.

O Estadão busca contato com Geddel e Uldurico Júnior. O espaço está aberto.

A Operação Duas Rosas foi deflagrada na quinta-feira, 16. O nome “Duas Rosas” faz referência ao valor estimado da vantagem indevida que teria sido paga a Uldurico Júnior, que foi preso em um hotel na Praia do Forte. Em conversas com Joneuma, ele sugere que metade da propina de R$ 2 milhões para executar o plano de fuga do líder da facção seria destinada a Geddel. O

Ministério Público instaurou um Procedimento Investigatório Criminal (PIC) sobre a suposta ligação de Geddel com Uldurico Júnior e se ele foi mesmo beneficiário da partilha.

Em setembro de 2017, na Operação Tesouro Perdido, a Polícia Federal achou R$ 51 milhões em dinheiro vivo em um apartamento no bairro da Graça, em Salvador, alugado por Geddel para “guardar documentos”. As cédulas de reais (R$ 42,6 milhões) e dólares (US$ 2,7 milhões) estavam estocadas em malas, caixas de papelão e também espalhadas pelo chão.

Os federais levaram três dias para concluir a contagem da fortuna, cuja origem nunca foi explicada pelo ex-ministro dos governos Dilma e Temer. Dois anos depois, formalmente acusado de lavagem de dinheiro, Geddel teve pena imposta pelo STF de 14 anos de prisão – a investigação revelou que o imóvel era usado pelo emedebista como “bunker” de ocultação de propinas. Peritos da PF capturaram impressões digitais dele nas notas e malas.



‘Choram as rosas’


Agora, quase uma década depois, Geddel vê seu nome citado na Operação Duas Rosas. Segundo a Promotoria, verificou-se que a expressão “rosa” era utilizada de forma codificada para se referir a dinheiro, aparecendo em diálogos e tratativas sob termos como “as rosas”, “quando as rosas vão chorar” ou “choram as rosas”, em alusão ao pagamento dos valores negociados.



Os promotores do Gaeco – grupo de combate ao crime organizado – apontam que Joneuma, indicação política de Uldurico Júnior para a direção do presídio, permitia a concessão de regalias aos internos integrantes do Primeiro Comando de Eunápolis, liderado por “Dadá”.

Entre as vantagens concedidas ao grupo de “Dadá” foram identificados acesso irrestrito a TVs, geladeiras e outros eletrodomésticos introduzidos na unidade, refeições diferenciadas, inclusive contratação de baiana de acarajé, uso de equipamentos sonoros, visitas íntimas nos pavilhões e livre circulação pelas dependências, até realização de velório.

Durante um ano e meio de gestão de Joneuma, o ex-parlamentar frequentou o presídio em diversas ocasiões, cujos ingressos, a seu pedido, não foram registrados em livros próprios, oportunidade em que se reunia reservadamente com “Dadá”, segundo os promotores.

O inquérito Duas Rosas indica que uma primeira parcela da propina do Comando Vermelho para Uldurico Júnior – R$ 200 mil em espécie – foi entregue ao ex-deputado em uma caixa de sapatos.

A entrega desse montante se deu mais de um mês antes da fuga, no dia 4 de novembro, quando um emissário de “Dadá” entregou a caixa a Joneuma “a título de adiantamento”. No dia seguinte, ela foi à casa de Uldurico Alves Pinto, pai de Uldurico Júnior, no município de Teixeira de Freitas – R$ 150 mil ficaram de posse de Uldurico, o pai.

Os R$ 50 mil restantes foram fracionados em um depósito de R$ 21 600 diretamente na conta bancária de Uldurico Júnior e um Pix de R$ 24 mil destinado a um aliado do ex-deputado, conforme comprovantes extraídos do celular da colaboradora.

Depois, Uldurico pressionou a ex-diretora do presídio para que lhe fosse entregue o restante do dinheiro, alegando, em várias ocasiões, que tinha que repassar a Geddel.

Acuada, Joneuma fechou acordo de delação premiada e espontaneamente abriu os dados de seu celular. Em troca de ficar apenas um ano presa em regime fechado e mais dois no semiaberto – depois, em domiciliar, mas “sem direito a promover, em sua residência, festas ou quaisquer outros eventos sociais” e sob vigilância eletrônica pessoal em tempo integral, através de rastreamento do GPS de seu telefone – ela revelou como foi arquitetada a fuga de “Dadá”.

Joneuma afirmou que, oito dias após a debandada dos 16 detentos, encontrou-se com Uldurico Júnior em um hotel em Salvador. Na ocasião, em 20 de dezembro de 2024, segundo ela, o ex-deputado a teria ameaçado “caso contasse algo sobre os fatos”.

Metade para o ‘chefe’

A delatora informou que Uldurico Júnior dizia que “metade do dinheiro da fuga seria para ele, e metade para o ‘chefe’ (referindo-se a Geddel Vieira Lima)”.

Joneuma relatou que Uldurico Júnior encaminhava a ela mensagens supostamente enviadas por Geddel, cobrando o dinheiro. Ela disse que as mensagens trocadas com Uldurico Júnior em 3 de janeiro de 2025, nas quais falam sobre “chorar as rosas”, referiam-se a quando ocorreria o pagamento do restante do valor acordado pela fuga.

O plano de fuga previa que apenas “Dadá” e seu braço direito “Sirlon” abandonariam a cadeia no dia 31 de dezembro de 2024. Os diálogos mostram que Uldurico Júnior cobrou Joneuma por mensagem de WhatsApp e a questionou por que fugiram mais internos e em uma data diferente da que havia sido programada. Ela atribuiu tudo a “Dadá”. “Ele fez na maldade, eu estava ajudando em tudo. Eu não sabia, de coração.”

Uldurico encaminhou a Joneuma capturas de tela de supostas conversas travadas com um contato salvo sob o nome “Geddel”. “O teor das mensagens sugere que Uldurico estaria repassando a Geddel (entende-se ser Geddel Vieira Lima) informações distorcidas sobre a fuga, numa aparente tentativa de atribuir a outrem a autoria dos fatos e, assim, afastar a responsabilidade de ambos pela participação direta no evento criminoso”, diz a Promotoria.
‘Se não der, tô morto’

Às 21h09 de 20 de dezembro de 2024, Uldurico Júnior encaminhou a Joneuma novas capturas de tela de mensagens em formato de imagem Em uma delas, mencionou: “Você achou oq? Rosa chora quando? Amanhã o chefe quer falar”.

“Salienta-se, uma vez mais, que o termo ‘rosas chorarem’ significa o pagamento de dinheiro, possivelmente advindo da corrupção aqui tratada”, argumentam os promotores.

Na sequência, Uldurico Júnior encaminhou outra captura de tela, supostamente de diálogo com contato salvo como “Geddel”. Em outro momento, ele remeteu novas mensagens em formato de imagem. Em uma delas, mencionou: “O que eu falo pro chefe quando ele perguntar da rosa? Na cabeça dele já chorou. To nervoso. Sem saber bem como falo.” Escreveu, ainda: “Se não der to morto. Estão mirando uma bazuca em mim”.

“As mensagens extraídas do celular da colaboradora revelam um padrão de pressão sistemática exercida por Uldurico Júnior, que cobrava o pagamento do saldo remanescente dos dois milhões por meio da expressão codificada ‘chorar as rosas'”, sustenta a Promotoria.




Por Estadão Conteúdo 22/04/2026 13h27