Drones militares, mineração digital e expansão territorial: a nova face do crime organizado no Rio de Janeiro
Facção ultrapassa os limites do narcotráfico convencional e diversifica operações em logística, finanças e controle político
24/05/2026 15:02
| Atualizado há 51 minutos atrás
Equipamentos aéreos com capacidade para transportar dezenas de armamentos, instruções de combate importadas de um conflito europeu, uma operação ilegal de mineração de moedas digitais, suspeitas de cooptação de agentes públicos, ocupação de zonas residenciais historicamente controladas por outros grupos e um lucrativo mercado clandestino de telecomunicações mantido pela força. Esse é o retrato traçado por investigações e operações recentes das forças de segurança sobre a atuação do Comando Vermelho (CV) no estado do Rio de Janeiro — uma organização que, segundo autoridades, há muito extrapolou os limites do tráfico de drogas e hoje opera em múltiplas frentes para consolidar poder, receita e influência, enquanto protege seus principais líderes nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte carioca.

Aeronaves de grande porte e know-how de zona de guerraLevantamentos conduzidos pela inteligência da Secretaria de Segurança Pública apontam que criminosos ligados ao Complexo do Alemão passaram a utilizar drones de uso agrícola e de transporte de cargas, adaptados para fins ilícitos. Os aparelhos têm envergadura de aproximadamente três metros, conseguem percorrer até 12 quilômetros sem recarga e suportam cargas de até 80 quilos — o suficiente para transportar cerca de duas dezenas de fuzis de alto calibre. Cada unidade custa mais de R$ 200 mil.
Imagens registradas por helicóptero da Polícia Militar mostraram um grupo de pelo menos dez pessoas ao redor de um desses drones durante um procedimento de instrução, momentos antes de a aeronave decolar. De acordo com as autoridades, o responsável pelo treinamento seria um cidadão brasileiro que passou mais de um ano atuando como combatente voluntário na guerra entre Ucrânia e Rússia e, ao retornar ao país, teria colocado o conhecimento adquirido no front a serviço de integrantes da facção.
Ainda segundo as investigações, esse indivíduo teria entregado a Edgar Alves de Andrade — conhecido como Doca, apontado como membro da cúpula do CV — uma placa de proteção balística utilizada por ele durante o conflito. A principal preocupação das forças de segurança é que essas aeronaves permitam o transporte de armas e entorpecentes entre territórios controlados pela organização sem qualquer contato com vias terrestres monitoradas por agentes policiais.
Mineração de bitcoin dentro de mercado
Durante ação realizada na última sexta-feira no Complexo do Lins, integrante da Operação Contenção, policiais civis depararam com uma estrutura montada nos fundos de um estabelecimento comercial voltada exclusivamente para a mineração de criptomoedas. O local concentrava dezenas de computadores dedicados à validação de transações em blockchain, todos conectados a uma instalação elétrica improvisada — artifício utilizado para reduzir os custos de uma atividade conhecida pelo altíssimo consumo de energia.
A descoberta aconteceu no contexto de uma ofensiva contra integrantes do Comando Vermelho investigados por tráfico, roubos de veículos, assaltos, ataques a agências bancárias e controle armado dos acessos à comunidade. As investigações apontam ainda que o grupo operava um sistema de monitoramento em tempo real das movimentações de viaturas, blindados e aeronaves policiais, além de utilizar canais de comunicação criptografados para transmitir ordens e coordenar ações.
Central de celulares roubados
Em março do ano anterior, uma operação no Morro do Fallet-Fogueteiro, em Santa Teresa, revelou a existência de um laboratório clandestino de desbloqueio de aparelhos celulares. Instalado num cômodo oculto atrás de um bar, o espaço abrigava 200 dispositivos roubados ou furtados, além de softwares e equipamentos usados para alterar os identificadores eletrônicos dos aparelhos e viabilizar sua revenda.
A operação tinha como alvo inicial drogas, mas os agentes depararam com a estrutura por acaso. O esquema incluía o envio de mensagens falsas imitando comunicados oficiais da Apple para acessar contas das vítimas, uso de programas automatizados para testar combinações de senhas e, em alguns casos, coerção das próprias vítimas durante os roubos para que entregassem senhas ou desativassem travas de segurança.
Ramificações no ambiente político
As investigações alcançaram também o campo institucional. A Procuradoria-Geral da República apresentou denúncia ao Supremo Tribunal Federal contra o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro Rodrigo Bacellar, o ex-deputado estadual conhecido como TH Joias e um desembargador. A acusação é de que os três teriam colaborado para prejudicar investigações relacionadas ao CV, fornecendo informações reservadas sobre operações das forças de segurança.
Um dos episódios mencionados diz respeito a uma operação da Polícia Federal deflagrada em setembro do ano passado. Conforme a acusação, o parlamentar teria sido alertado com antecedência e removido computadores e equipamentos de seu escritório antes da chegada dos agentes. TH Joias é acusado ainda de intermediar negociações de drogas, armamentos e dispositivos contra drones direcionados ao Complexo do Alemão, supostamente valendo-se do cargo para beneficiar o crime organizado. As defesas negam as acusações.
Ocupação de novos territórios
A expansão do CV passou a incluir áreas urbanizadas distantes das favelas mais tradicionais. Moradores do bairro de Jacarepaguá relataram a tomada, em pouco mais de um mês, de uma área de cerca de 55 mil metros quadrados entre duas vias do bairro — região anteriormente sob influência de grupos milicianos.
De acordo com os relatos, a chegada da facção se deu na virada para 2026, com homens armados percorrendo as ruas e disparando para o alto como forma de marcar presença. Comerciantes e residentes descrevem cobranças diárias para funcionamento de negócios, ameaças, expulsão de trabalhadores e fechamento forçado de estabelecimentos. Especialistas em segurança pública caracterizam esse tipo de atuação como uma fase de "influência territorial" — etapa anterior à instalação de estruturas fixas de controle, marcada pela circulação armada e pela imposição de regras pelos novos ocupantes.
Internet como fonte de renda
Outro vetor de expansão econômica identificado pelas autoridades é o controle clandestino de provedores de internet. Levantamento apontou que grupos criminosos — tanto milícias quanto facções como o CV — já atuam nesse segmento em pelo menos 37 dos 92 municípios do estado, o que representa cerca de 40% do território fluminense.
Empresas que se recusam a pagar taxas ou ceder espaço a operadores ligados ao crime têm sido alvo de represálias: só nos primeiros quatro meses do ano corrente, veículos, escritórios e instalações de provedores foram incendiados em ao menos quatro municípios do interior e da Baixada Fluminense.
O modelo de atuação varia: em alguns territórios, os próprios grupos criminosos operam os serviços de telecomunicação, direta ou indiretamente; em outros, limitam-se a cobrar uma espécie de pedágio das empresas licenciadas. Apenas nas comunidades da Muzema, Rio das Pedras e Gardênia Azul, 18 empresas foram identificadas explorando o serviço sob esse esquema, gerando uma receita mensal estimada de R$ 3 milhões para os grupos que controlam a área.
Líderes protegidos e investigados
No centro de toda essa estrutura estão figuras apontadas pelas investigações como membros da cúpula do CV, ainda em liberdade e com paradeiro nos complexos da Penha e do Alemão. A Delegacia de Homicídios da Capital concluiu recentemente o inquérito sobre a emboscada que resultou na morte de cinco policiais civis e militares durante operação realizada em 28 de outubro de 2025.
Entre os indiciados estão Doca, que acumula 317 registros criminais e 43 ordens de prisão em aberto; Gadernal, descrito como responsável pela gestão financeira, logística e operacional da organização; e Pedro Bala, apontado como encarregado de ordenar confrontos armados para garantir o controle territorial. Juntos, os três somam 69 mandados de prisão.
As investigações concluíram que os criminosos montaram uma armadilha premeditada na região da Vacaria, na Vila Cruzeiro, com o objetivo de atingir o maior número possível de policiais. Sete suspeitos foram presos dentro de uma estrutura de concreto — descrita como um bunker — erguida em área de mata fechada.
Fonte: Extra/Globo

