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Indústria terá de combinar diferentes rotas para descarbonizar sem perder competitividade

Executivos afirmam que não há ‘bala de prata’ para reduzir emissões; combinação de tecnologias dependerá das características de cada setor

Indústria terá de combinar diferentes rotas para descarbonizar sem perder competitividade
Debate 'O desafio da indústria intensiva em energia', realizado durante o evento 'Transição Energética – Energia e indústria', promovido pelos jornais O GLOBO e Valor Econômico — Foto: Gabriel Reis/Valor

Não existe uma solução mágica para descarbonizar a indústria. Mineração, alumínio, siderurgia e outros segmentos intensivos em energia terão de combinar diferentes tecnologias para reduzir emissões sem perder a competitividade. Esse foi o principal consenso do painel "O desafio da indústria intensiva em energia", realizado durante o evento "Transição Energética – Energia e indústria: como descarbonizar sem perder competitividade", promovido pelo Valor e pelo O GLOBO, e que reuniu Alessandra Fajardo, diretora-executiva técnica do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS); Janaína Donas, presidente-executiva da Associação Brasileira do Alumínio (Abal); e Rodrigo Lauria, diretor de mudanças climáticas e descarbonização da Vale.



O desafio ajuda a explicar por quê. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), a indústria responde por cerca de um quarto das emissões globais de dióxido de carbono (CO₂) relacionadas à energia. Em setores como mineração, aço, cimento e alumínio, parte das emissões pode ser reduzida com eletrificação, eficiência energética e substituição de combustíveis fósseis. Outra parte depende de tecnologias que ainda não atingiram escala comercial.

"Não vamos ter uma bala de prata", afirmou Lauria. Segundo ele, a Vale vem combinando aumento do uso de biocombustíveis, ganhos de eficiência energética, inteligência artificial, desenvolvimento de novos combustíveis e produtos menos intensivos em carbono. Desde o início da década, a companhia já investiu mais de R$ 9 bilhões nessa agenda.

Lauria também explicou que reduzir emissões deixou de ser apenas uma agenda ambiental e passou a ser "sobretudo uma agenda de competitividade." Segundo o executivo, à medida em que diferentes países ampliam mecanismos de precificação do carbono, empresas capazes de reduzir a intensidade de elemento em seus produtos passam a ganhar vantagem competitiva.

A mesma lógica aparece no trabalho desenvolvido pelo CEBDS para apoiar as discussões climáticas. Em vez de buscar uma solução comum para todos os segmentos, a entidade procurou identificar quais medidas concentram o maior potencial de redução de emissões em cada cadeia produtiva. "Muitas vezes quatro alavancas eram responsáveis por 70% da descarbonização. No caso do agro, quatro alavancas eram responsáveis por 80%", disse Fajardo.

O alumínio é um bom exemplo de como a transição energética seguirá caminhos diferentes. A cadeia é classificada internacionalmente como “hard to abate”, expressão usada para atividades cuja redução de emissões apresenta elevada complexidade tecnológica e econômica. Além do elevado consumo de eletricidade, parte das emissões está associada ao próprio processo industrial.

"Muitas vezes as tecnologias disponíveis ainda não estão na escala", afirmou Donas. Em alguns casos, acrescentou, será preciso "reinventar a roda", para alinhar o setor aos objetivos ambientais. Parte dessa pressão vem do exterior. O Carbon Border Adjustment Mechanism (CBAM), criado pela União Europeia, é um exemplo disso. O mecanismo aplica um preço ao carbono incorporado em produtos importados de setores como aço, alumínio, cimento, fertilizantes e hidrogênio, aproximando seu custo daquele enfrentado pelos produtores europeus.

Na avaliação dos participantes, boa parte dessa transformação dependerá do próprio setor privado. Lauria resumiu o momento afirmando que as empresas devem adotar "menos discurso, mais ação". A percepção de que cada setor deve tomar a dianteira e entender onde cada um tem seu gargalo levou a CEBDS a ampliar o trabalho sobre transição energética, reunindo empresas para discutir temas comuns, como eletrificação e biocombustíveis. A entidade também trabalha na criação de um observatório para acompanhar os resultados das medidas de descarbonização."Esse esforço de transição energética e descarbonização não tem uma solução única. É um conjunto de soluções", afirmou Donas.

O painel integrou o ciclo Transição Energética, promovido por Valor Econômico e O GLOBO, com patrocínio da Vale. A mesa foi mediada por Rafael Vásquez, repórter do Valor Econômico.


Fonte consultada: Mário Camera*, Valor Econômico — São Paulo / O Globo