Ceuta e Melilla: fronteiras fortificadas também preservam uma antiga vida judaica
Crise migratória em Ceuta reacende tensões entre Espanha e Marrocos, enquanto Melilla mantém uma comunidade judaica com sinagogas e um eruv.
07/08/2026 16:47
Por Prime Rádio - Ceuta e Melilla voltaram ao centro das atenções internacionais após a entrada em massa de migrantes na cidade espanhola de Ceuta, no norte da África. O episódio expôs a fragilidade de uma das fronteiras mais reforçadas entre território europeu e africano e reacendeu discussões sobre migração, segurança e as relações entre Espanha e Marrocos. Ao mesmo tempo, essas cidades preservam uma presença judaica histórica que integra o mosaico religioso e cultural da região.

A dimensão da crise migratória foi excepcional. Segundo informações divulgadas pelas autoridades espanholas, cerca de 72 mil pessoas entraram em Ceuta durante o episódio recente, enquanto estimativas marroquinas apontaram aproximadamente 40 mil. A maior parte retornou posteriormente ao Marrocos, mas milhares permaneceram no território espanhol. Os números variam conforme a fonte e o período considerado.
O episódio também teve consequências humanas graves. O presidente de Ceuta, Juan Jesús Vivas, afirmou em reunião do Parlamento Europeu que aproximadamente 100 pessoas morreram durante a tentativa de atravessar a fronteira. Separadamente, o governo espanhol confirmou pelo menos 75 mortes relacionadas ao episódio, segundo a Associated Press. As diferenças refletem atualizações e critérios distintos de contabilização.
A situação permanece especialmente delicada para crianças e adolescentes que atravessaram a fronteira sem acompanhamento. Segundo a Reuters, aproximadamente 1.100 menores desacompanhados permaneciam em Ceuta, enquanto o governo marroquino anunciou disposição para cooperar com a Espanha na identificação e eventual repatriação daqueles que tenham nacionalidade marroquina. O processo, porém, depende das regras legais aplicáveis à proteção de menores.
Ceuta e Melilla possuem uma característica geográfica singular. São cidades espanholas localizadas no continente africano e constituem os dois principais pontos de fronteira terrestre entre a União Europeia e o território marroquino. Suas cercas, sistemas de vigilância e controles fronteiriços transformaram as cidades em pontos estratégicos da política migratória europeia, especialmente diante das tentativas de entrada irregular.
A importância dessas localidades, entretanto, não se limita à questão migratória. Melilla abriga uma comunidade judaica estabelecida no século XIX, cuja história está ligada à chegada de comerciantes judeus provenientes do Marrocos. Estudos históricos da Universidade Nacional de Educação a Distância da Espanha (UNED) documentam a trajetória da população judaica de Melilla e sua participação na formação social da cidade.
A presença judaica também permanece visível na arquitetura e na vida religiosa local. A comunidade israelita de Melilla mantém a sinagoga Or Zaruah, além de outras instituições religiosas e culturais. Em 2026, a comunidade recebeu um apoio de € 40 mil do governo local para atividades culturais e para a manutenção da sinagoga, dentro da iniciativa turística conhecida como "Rota dos Templos".
Um dos elementos mais particulares dessa história é o eruv, uma delimitação reconhecida pela tradição judaica que permite, sob determinadas condições da lei religiosa, transportar objetos em áreas públicas durante o Shabat. Segundo a associação cultural judaica Mem Guímel, Melilla possui um eruv supervisionado pela autoridade rabínica e considerado o único desse tipo na Espanha.
O conceito de eruv ajuda a compreender a relação incomum entre espaço urbano, religião e fronteira em Melilla. A estrutura não representa uma fronteira política nem altera a soberania territorial. Trata-se de uma delimitação religiosa que utiliza elementos físicos existentes ou estruturas específicas para estabelecer, segundo a lei judaica, uma área na qual determinadas atividades são permitidas durante o Shabat.
Ceuta também possui uma comunidade judaica oficialmente estabelecida. A própria Comunidade Israelita de Ceuta registra referências históricas à presença de judeus na cidade há séculos, incluindo menções associadas ao poeta judeu-espanhol Abraham Ibn Ezra, no século XI, e ao filósofo e poeta Yosef Yehudá ben Acnin, conhecido como "o Ceutí".
A existência dessas comunidades revela uma dimensão menos conhecida das duas cidades. Ao lado de cristãos e muçulmanos, judeus integram a diversidade religiosa que caracteriza Ceuta e Melilla. Em Melilla, essa herança é particularmente preservada por sinagogas, instituições educacionais, atividades culturais e iniciativas de turismo relacionadas à história judaica.
Enquanto a crise migratória recoloca Ceuta no centro do debate europeu sobre fronteiras e segurança, a história judaica de Ceuta e Melilla lembra que esses territórios também são espaços de circulação, convivência e intercâmbio cultural. A combinação entre a posição estratégica, a disputa política entre Espanha e Marrocos e a diversidade religiosa ajuda a explicar por que as duas cidades ocupam um lugar singular na relação entre Europa, África e o Mediterrâneo.

Fontes utilizadas: Reuters / Associated Press / European Jewish Congress / UNED
