Cristália apresenta pesquisa de vacina contra o tabagismo e aposta em nova estratégia contra a dependência de nicotina
Projeto ainda está em fase pré-clínica e apresentou resultados preliminares em animais; candidata busca impedir que a nicotina chegue ao cérebro
27/08/2026 14:07
Por Prime Rádio - O Laboratório Cristália apresentou nesta quinta-feira (27) resultados preliminares de uma pesquisa para desenvolver uma vacina contra o tabagismo. O projeto, iniciado em maio de 2024 em parceria com pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ainda está em fase pré-clínica, denominada Early Discovery, e não foi testado em seres humanos.
A proposta é utilizar o próprio sistema imunológico para reduzir os efeitos da nicotina. Em vez de atuar diretamente no sistema nervoso central, a tecnologia pretende estimular a produção de anticorpos capazes de se ligar às moléculas de nicotina na corrente sanguínea. O complexo formado entre anticorpo e nicotina teria tamanho suficiente para dificultar a passagem da substância pela barreira hematoencefálica e, consequentemente, reduzir sua chegada ao cérebro.
Segundo informações apresentadas pelo laboratório, os primeiros experimentos foram realizados em roedores com dependência de nicotina induzida. Os animais receberam três doses da candidata vacinal e apresentaram melhora em alterações comportamentais associadas à dependência, incluindo ansiedade e hiperexcitabilidade. A pesquisadora Gisele Zapata-Sudo, responsável por essa etapa, afirmou que também foram identificados anticorpos específicos e redução da chegada da nicotina ao cérebro dos animais.
Os resultados quantitativos completos não foram divulgados pela equipe em razão do processo de patente em andamento. O próximo passo previsto é a realização de estudos formais de toxicidade, antes de uma eventual passagem para pesquisas clínicas em humanos.
A estratégia busca superar uma das principais dificuldades encontradas em tentativas anteriores de desenvolver vacinas contra a nicotina: conseguir produzir uma resposta imunológica suficientemente forte e consistente. Candidatas como NicVAX, NicQb, Niccine e TA-NIC chegaram a diferentes etapas de investigação, mas não demonstraram eficácia clínica geral suficiente para serem aprovadas como tratamentos contra o tabagismo.
De acordo com Rogério Almeida, vice-presidente de Pesquisa e Inovação do Cristália, a candidata brasileira utiliza uma molécula totalmente sintética, em uma tentativa de evitar limitações observadas nas tecnologias anteriores. A empresa afirma que a estrutura foi desenvolvida para apresentar a nicotina ao sistema imunológico de maneira mais eficiente e favorecer a produção de anticorpos específicos.
Investimentos e histórico do laboratório
O novo projeto amplia a atuação do Cristália em pesquisas de medicamentos e tecnologias consideradas de alto risco científico. O laboratório já investiu cerca de R$ 150 milhões no desenvolvimento da polilaminina, em parceria com a UFRJ, segundo informações divulgadas pela imprensa especializada. O valor inclui investimentos no desenvolvimento da molécula, aplicações realizadas por meio de uso compassivo e pedidos de patente.
A polilaminina, entretanto, segue em investigação clínica e ainda não possui registro definitivo da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Em janeiro de 2026, a agência autorizou o início de um estudo clínico de fase 1 destinado a avaliar a segurança da substância em pacientes com trauma raquimedular agudo.
A situação é relevante para contextualizar a nova pesquisa porque a candidata contra o tabagismo está em estágio ainda mais inicial. Diferentemente da polilaminina, que já chegou à primeira fase de testes em humanos, a vacina antitabagismo ainda precisa concluir as etapas pré-clínicas antes de eventualmente ser submetida aos estudos clínicos de fases 1, 2 e 3. A aprovação pela Anvisa, portanto, não está próxima e não há previsão de quando — ou se — a tecnologia chegará ao mercado.
Como o tratamento do tabagismo funciona atualmente
Enquanto a pesquisa não avança para testes clínicos, o tratamento da dependência de nicotina permanece baseado nas terapias já disponíveis. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) informa que o Sistema Único de Saúde oferece tratamento gratuito para pessoas que desejam parar de fumar. A abordagem inclui acompanhamento profissional e estratégias comportamentais, além de medicamentos quando indicados.
Entre os recursos disponíveis no SUS estão as terapias de reposição de nicotina, como adesivos e gomas, e a bupropiona. Segundo o protocolo do Ministério da Saúde, esses medicamentos são utilizados para reduzir os sintomas da abstinência e devem estar associados à abordagem estruturada para cessação do tabagismo.
O INCA classifica o tabagismo como uma doença crônica relacionada à dependência da nicotina e afirma que o consumo de tabaco está associado a diversos tipos de câncer, doenças cardiovasculares e respiratórias. A instituição também informa que o cigarro está relacionado a cerca de 90% das mortes por câncer de pulmão.
Assim, embora os resultados iniciais apresentados pelo Cristália indiquem uma possível nova abordagem para combater a dependência, a candidata ainda está distante de uma eventual utilização clínica. Será necessário demonstrar segurança e eficácia em sucessivas etapas de pesquisa antes que qualquer pedido de registro possa ser considerado pela Anvisa.
Fontes consultadas: UOL/VivaBem, Laboratório Cristália, Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Instituto Nacional de Câncer (INCA) e Ministério da Saúde.

