Médico no Chile realiza cirurgia à distância em paciente com câncer de próstata em Goiás
Procedimento foi realizado em Goiânia com robô cirúrgico comandado remotamente a partir de Santiago; operação marca avanço na telecirurgia internacional no Centro-Oeste
27/08/2026 17:42
| Atualizado há 8 horas atrás
Por Prime Rádio - Um médico localizado em Santiago, no Chile, realizou remotamente uma prostatectomia radical em um paciente com câncer de próstata que estava no Hospital do Rim, em Goiânia (GO). O procedimento ocorreu na terça-feira (25) e utilizou um sistema robótico Toumai, permitindo que os comandos do cirurgião fossem transmitidos em tempo real para os instrumentos instalados no centro cirúrgico em Goiás.

De acordo com informações divulgadas pelo urologista Marco Túlio Alves Cruvinel, que participou da equipe presencial em Goiânia, o procedimento teve cerca de 1h50 de tempo de console. A distância entre Santiago e Goiânia é de aproximadamente 2,8 mil a 3 mil quilômetros. A operação foi apresentada como a primeira telecirurgia internacional a conectar o Chile ao estado de Goiás, além de representar a primeira prostatectomia realizada por telecirurgia em Goiás e a primeira operação desse tipo conduzida pelo Hospital do Rim.
Como funciona a cirurgia à distância
Na telecirurgia robótica, o médico não manipula diretamente os instrumentos que estão no paciente. Ele utiliza uma estação de comando localizada em outra unidade ou cidade. Os movimentos realizados no console são convertidos em comandos para os braços robóticos posicionados junto ao paciente.
No caso realizado em Goiânia, a plataforma utilizada foi o Toumai, sistema desenvolvido pela chinesa MicroPort MedBot e distribuído no Brasil pela Hospcom. O equipamento possui quatro braços robóticos, visualização tridimensional em alta definição e sistema de teleoperação mestre-escravo, além de recursos de conectividade destinados a procedimentos remotos.
A operação, entretanto, não dispensa a presença de profissionais junto ao paciente. A equipe localizada no Hospital do Rim permanece responsável pelo acompanhamento direto do procedimento e pela assistência necessária durante a cirurgia. Esse modelo é semelhante ao adotado em outras experiências de telecirurgia realizadas no Brasil, nas quais o especialista remoto atua em conjunto com profissionais presentes no centro cirúrgico.
Conectividade é parte essencial do procedimento
A realização de uma cirurgia desse tipo exige uma infraestrutura de comunicação capaz de transmitir comandos e imagens com elevada estabilidade. Segundo informações divulgadas sobre o procedimento em Goiás, foram utilizadas duas conexões independentes de fibra óptica, além de redundância por rede 5G e uma rede privada virtual (VPN) dedicada.
A preocupação com a latência — o intervalo entre o comando realizado pelo cirurgião e a resposta do equipamento — é um dos principais desafios da telecirurgia. Uma conexão instável ou com atraso excessivo pode comprometer a precisão necessária para procedimentos médicos. Por isso, experiências anteriores no Brasil também utilizaram redes de alta velocidade e estruturas redundantes de comunicação.
Avanço segue experiências anteriores no Brasil
A experiência em Goiás ocorre em um momento de expansão da telecirurgia robótica no país. Em fevereiro de 2026, a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) iniciou procedimentos de telecirurgia robótica no SUS, conectando um console médico ao Hospital Universitário. Entre os procedimentos realizados naquela etapa esteve uma cirurgia para retirada da próstata.
Em junho, o Hospital de Amor também realizou uma telecirurgia robótica de longa distância no SUS, conectando Porto Velho (RO) e Barretos (SP), a aproximadamente 2,7 mil quilômetros. Na ocasião, um paciente com neoplasia maligna do reto foi operado enquanto a equipe especializada responsável pelo comando do robô estava em outra cidade.
Essas experiências demonstram que a tecnologia vem sendo utilizada não apenas para treinamento ou demonstrações, mas também em procedimentos realizados em pacientes. A expansão, contudo, depende de infraestrutura hospitalar adequada, conectividade segura, profissionais capacitados e protocolos para situações de emergência.
Tecnologia pode reduzir barreiras geográficas
A principal possibilidade associada à telecirurgia é permitir que especialistas participem de procedimentos sem precisar viajar até o local onde está o paciente. Em regiões com menor concentração de profissionais especializados, a tecnologia pode, em determinadas circunstâncias, facilitar o acesso a equipes de referência.
A cirurgia robótica convencional já é utilizada em procedimentos urológicos, incluindo prostatectomias. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) destaca que a tecnologia permite movimentos mais precisos e maior ampliação do campo visual, enquanto o caráter minimamente invasivo pode contribuir para reduzir dor, complicações e tempo de internação em determinados procedimentos.
No caso de Goiás, o procedimento realizado em 25 de agosto acrescenta uma dimensão internacional a esse processo: o especialista responsável pelo comando estava no Chile, enquanto o paciente e a equipe de apoio permaneciam em Goiânia.
A experiência representa, portanto, um novo passo na utilização da conectividade aplicada à medicina de alta complexidade, mas ainda não significa que cirurgias remotas sejam uma prática rotineira. A segurança depende da combinação entre tecnologia robótica, infraestrutura de comunicação, equipe presencial preparada e protocolos específicos para eventuais falhas durante o procedimento.

Fontes: IT Forum, que noticiou a realização da telecirurgia entre Santiago e Goiânia; Hospital de Amor, instituição que documentou experiência anterior de telecirurgia robótica de longa distância no SUS; e Hospcom, responsável pela distribuição no Brasil do sistema robótico Toumai.
