Brasil amplia comércio com Índia e retoma diálogo sobre tarifaço
Memorando entre ApexBrasil e indústria indiana busca aproximar empresas e investimentos, enquanto governo brasileiro reabre negociações comerciais com os Estados Unidos
27/08/2026 18:45
Por Prime Rádio - O Brasil avançou nesta quinta-feira (27) na estratégia de ampliar relações comerciais com a Índia, em meio às medidas tarifárias adotadas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) e a Confederação das Indústrias Indianas (CII) assinaram um Memorando de Entendimento (MoU) para ampliar a cooperação comercial e de investimentos entre os dois países.

O documento estabelece mecanismos para intercâmbio de informações de mercado, compartilhamento de boas práticas, promoção de feiras e estímulo à internacionalização de pequenas e médias empresas. Também prevê uma base institucional para projetos conjuntos de atração de investimentos e facilitação de negócios bilaterais. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o memorando tem caráter não vinculante.
A assinatura ocorreu na sede da ApexBrasil, em Brasília, com participação do ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa. A agenda da delegação indiana incluiu ainda reuniões com entidades empresariais e órgãos brasileiros, além de apresentações sobre oportunidades de investimentos em infraestrutura e diferentes setores da economia.
A aproximação ocorre dentro de uma estratégia mais ampla de diversificação dos parceiros comerciais brasileiros. Em 2025, o comércio entre Brasil e Índia chegou a aproximadamente US$ 15 bilhões, alta de 25,5% em relação ao ano anterior. As exportações brasileiras somaram US$ 6,9 bilhões, enquanto as importações provenientes da Índia alcançaram US$ 8,4 bilhões. Os dois países estabeleceram a meta de elevar o comércio bilateral para US$ 20 bilhões até 2030.
Além da cooperação entre empresas, Brasil e Índia trabalham para ampliar o Acordo de Comércio Preferencial entre o Mercosul e o país asiático. O entendimento atual possui alcance limitado, e o governo brasileiro pretende aumentar o número de produtos abrangidos pelas preferências tarifárias. Entretanto, o ministro Márcio Elias Rosa afirmou nesta quinta-feira que uma ampliação do acordo dificilmente será concluída ainda em 2026, devido à complexidade das negociações e à necessidade de conciliar os interesses dos dois lados.
O relacionamento comercial com a Índia ganhou relevância adicional diante das dificuldades enfrentadas pelo Brasil no mercado norte-americano. Em julho, os Estados Unidos estabeleceram sobretaxas adicionais de 25% e 12,5% sobre parcelas das importações brasileiras, de acordo com o MDIC. Quando as duas medidas incidem simultaneamente sobre determinados produtos, a sobretaxa adicional pode chegar a 37,5%.
Segundo dados do governo brasileiro, aproximadamente 23,1% das exportações brasileiras para os Estados Unidos, tomando como referência os números de 2024, estão sujeitas às novas sobretaxas decorrentes das investigações conduzidas com base na Seção 301 da legislação comercial norte-americana. No primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras para os Estados Unidos somaram US$ 17,4 bilhões, queda de 13% em comparação com o mesmo período de 2025.
Paralelamente à busca por novos mercados, o Brasil retomou o diálogo direto com Washington. Após uma conversa entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump em 21 de agosto, o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, entrou em contato com o MDIC para discutir a retomada das negociações. O governo brasileiro informou que representantes do ministério e do Ministério das Relações Exteriores deveriam se reunir com o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos.
O Brasil também levou a disputa tarifária à Organização Mundial do Comércio. Em 27 de julho, o governo brasileiro apresentou um pedido de consultas aos Estados Unidos no sistema de solução de controvérsias da OMC, contestando as medidas adotadas com base na Seção 301. O governo afirma considerar as tarifas incompatíveis com compromissos assumidos pelos Estados Unidos no âmbito do sistema multilateral de comércio.
A combinação entre a abertura de novos mercados e a tentativa de renegociar as condições comerciais com os Estados Unidos ocorre, portanto, em duas frentes distintas. Com a Índia, o governo busca ampliar relações comerciais, investimentos e oportunidades para empresas brasileiras. Com os Estados Unidos, o objetivo é encontrar uma solução negociada para as sobretaxas que atingem parte das exportações nacionais.
A aproximação com a Índia, contudo, não representa uma substituição imediata do mercado norte-americano. A meta de US$ 20 bilhões em comércio bilateral até 2030 representa uma expansão relevante em relação ao fluxo registrado em 2025, mas depende da ampliação do acesso a mercados, da diversificação da pauta comercial e do avanço das negociações tarifárias entre Mercosul e Índia.

Fontes oficiais utilizadas: Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) · Agência Gov
