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Quase metade dos médicos de UTI apresenta alto nível de esgotamento, aponta estudo

Pesquisa da Associação de Medicina Intensiva Brasileira em parceria com o Conselho Federal de Medicina também identificou níveis elevados de insatisfação entre profissionais que atuam em unidades de terapia intensiva

Quase metade dos médicos de UTI apresenta alto nível de esgotamento, aponta estudo
Imagem de estetoscópio — Foto: Divulgação / Pexels

Por Prime Rádio - Um levantamento realizado pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB), em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM), chama atenção para as condições de trabalho e o nível de desgaste entre médicos que atuam em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) no Brasil. Os dados indicam que quase metade desses profissionais apresenta nível elevado de esgotamento profissional, além de apontarem índices relevantes de insatisfação com a atividade.




A pesquisa foi desenvolvida para ampliar o conhecimento sobre a realidade da medicina intensiva no país. O questionário buscou reunir informações relacionadas à prática profissional, condições de trabalho, remuneração, mercado de trabalho e ocorrência de burnout entre médicos que atuam em UTIs. A iniciativa foi apresentada pelas entidades médicas como instrumento para subsidiar estratégias de valorização e fortalecimento da especialidade.


O chamado burnout é associado ao estresse ocupacional prolongado e pode envolver exaustão emocional, distanciamento em relação ao trabalho e redução da sensação de realização profissional. No caso da medicina intensiva, o tema ganha relevância devido às características do ambiente de trabalho, marcado pelo atendimento contínuo de pacientes em estado grave, decisões clínicas complexas e necessidade de atuação permanente.


Uma revisão sistemática publicada na Revista Brasileira de Terapia Intensiva também aponta que médicos que trabalham em UTIs estão entre os grupos da medicina com maior exposição ao burnout. A análise, entretanto, ressalta que os estudos disponíveis apresentam diferenças importantes de metodologia e de definição da síndrome, o que exige cautela na comparação dos resultados.


Estudos brasileiros anteriores ajudam a dimensionar o problema. Uma pesquisa realizada com 297 médicos intensivistas em Salvador encontrou níveis elevados de exaustão emocional em 47,5% dos participantes. Considerando pelo menos uma das dimensões avaliadas pelo instrumento utilizado no estudo, a prevalência de burnout chegou a 63,3%; quando consideradas simultaneamente as três dimensões, o índice foi de 7,4%.


Condições de trabalho


A AMIB e o CFM informaram que a pesquisa realizada pelas duas entidades também buscou compreender aspectos relacionados às condições de trabalho dos médicos intensivistas. Segundo a AMIB, poderiam participar profissionais que atuaram em medicina intensiva nos 12 meses anteriores, incluindo tanto especialistas registrados quanto médicos de especialidades relacionadas que exercessem atividades em UTIs.


O levantamento ocorre em um contexto no qual as UTIs exercem uma função central no atendimento a pacientes em condições críticas. De acordo com a regulamentação do CFM, essas unidades são destinadas a oferecer suporte vital de alta complexidade, com monitorização contínua e recursos necessários para pacientes com condições graves e risco de morte. A assistência deve ser prestada de forma permanente por equipe multidisciplinar qualificada.


A própria AMIB destaca que o trabalho em terapia intensiva envolve elevada responsabilidade profissional. Dados do projeto UTIs Brasileiras mostram que a atuação das equipes especializadas está inserida em um cenário de grande complexidade assistencial, com diferenças relevantes entre regiões e entre os setores público e privado. Em levantamento divulgado pela entidade em 2024, 84% dos pacientes adultos internados nas UTIs monitoradas receberam alta, enquanto a mortalidade hospitalar apresentou diferenças entre as regiões brasileiras e entre hospitais públicos e privados.


Impacto para profissionais e pacientes


O desgaste dos médicos intensivistas não representa apenas uma questão relacionada ao bem-estar dos profissionais. A literatura científica aponta que o burnout pode afetar o desempenho, a satisfação profissional e a qualidade da assistência, tornando a saúde ocupacional das equipes um componente relevante da segurança do paciente.


Por esse motivo, a discussão sobre as condições de trabalho nas UTIs envolve também aspectos como dimensionamento das equipes, organização das jornadas, estrutura disponível e gestão dos serviços. A Resolução CFM nº 2.271/2020 estabelece parâmetros mínimos para a composição das equipes médicas em UTIs, incluindo a presença de médicos responsáveis pela rotina e de plantonistas de acordo com o número de leitos e a complexidade da unidade.


A pesquisa conduzida pela AMIB e pelo CFM foi apresentada como parte de um esforço para produzir informações que possam orientar ações voltadas à valorização da medicina intensiva e à melhoria das condições de trabalho. As entidades consideram que conhecer a realidade dos profissionais é importante para formular estratégias de fortalecimento da especialidade e, consequentemente, da assistência aos pacientes críticos.


Fontes: Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB); Conselho Federal de Medicina (CFM); Revista Brasileira de Terapia Intensiva/SciELO.