Aliados latino-americanos de Trump discutem classificação de cartéis como organizações terroristas
À margem da Assembleia Geral da ONU, países que integram o Escudo das Américas avaliam ampliar a estratégia de combate ao crime organizado e ao narcotráfico adotada pelos Estados Unidos
Por Prime Rádio - Países latino-americanos alinhados à política de segurança do governo de Donald Trump discutem, nesta terça-feira (22), em Nova York, medidas para ampliar o combate ao narcotráfico e ao crime organizado na região. Entre as propostas está a classificação de grupos criminosos como organizações terroristas, seguindo uma medida já adotada pelos Estados Unidos.

As discussões ocorrem paralelamente à 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas e envolvem integrantes do chamado Escudo das Américas (Shield of the Americas), uma coalizão de países criada em março de 2026 com o objetivo de ampliar a cooperação regional contra organizações criminosas, o tráfico de drogas e outras ameaças transnacionais.
O presidente Donald Trump participa das articulações e deve se reunir com representantes dos países que integram a iniciativa. A coalizão conta atualmente com 19 integrantes, segundo informações divulgadas por organizações e veículos que acompanham a iniciativa. Brasil e México não fazem parte do grupo.
Estratégia adotada pelos Estados Unidos
Desde o retorno de Trump à Presidência, os Estados Unidos ampliaram o uso da classificação de organizações criminosas como organizações terroristas estrangeiras. A medida permite a aplicação de sanções e outras consequências previstas na legislação norte-americana e passou a integrar a estratégia de Washington contra o narcotráfico.
Em março, a Casa Branca afirmou que o governo americano já havia designado diversos cartéis e grupos criminosos transnacionais como organizações terroristas estrangeiras. Na mesma ocasião, Trump anunciou uma coalizão regional destinada a coordenar ações contra essas organizações.
O governo americano também passou a empregar uma abordagem militar mais direta contra o tráfico de drogas. Segundo a Reuters, Trump afirmou nesta terça-feira, durante seu discurso na Assembleia Geral da ONU, que os Estados Unidos estão dispostos a utilizar sua capacidade militar para proteger seus interesses no Hemisfério Ocidental. O presidente também comparou os cartéis de drogas ao Estado Islâmico.
Ampliação da classificação
A proposta discutida pelos aliados latino-americanos prevê que outros países adotem mecanismos semelhantes aos utilizados por Washington. O objetivo declarado é tratar determinadas organizações criminosas transnacionais como ameaças de segurança e ampliar a cooperação entre forças de segurança, inteligência e estruturas militares.
A iniciativa ocorre em um momento de expansão do Escudo das Américas. O Peru passou a integrar formalmente a coalizão em setembro, após o governo da presidente Keiko Fujimori anunciar a adesão durante visita do secretário de Estado americano, Marco Rubio.
Em declarações realizadas durante o anúncio, Rubio afirmou que mais de 14 países do hemisfério já haviam se comprometido a cooperar com os Estados Unidos em questões relacionadas a contraterrorismo, combate ao narcotráfico e segurança.
A composição da coalizão, contudo, não significa que todos os integrantes tenham adotado internamente a mesma classificação jurídica utilizada pelos Estados Unidos. A designação de organizações criminosas como terroristas depende das legislações e dos procedimentos de cada país.
Brasil mantém posição diferente
O Brasil não participa do Escudo das Américas e mantém uma posição distinta em relação à classificação de facções criminosas como organizações terroristas.Em manifestações anteriores, o governo brasileiro afirmou defender a cooperação internacional contra o crime organizado e o tráfico de drogas, mas rejeitou a adoção automática da classificação de grupos criminosos brasileiros como organizações terroristas.
O tema ganhou relevância após os Estados Unidos incluírem organizações criminosas brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), entre grupos classificados por Washington como organizações terroristas.
A posição brasileira é que o combate ao crime organizado deve ocorrer por meio de mecanismos de cooperação policial, judicial e de inteligência, sem necessariamente transferir a questão para uma lógica de contraterrorismo e emprego militar.
Debate sobre consequências
A classificação de organizações criminosas como terroristas pode produzir efeitos jurídicos, financeiros e operacionais. Nos Estados Unidos, uma designação desse tipo permite a adoção de medidas contra integrantes e apoiadores dos grupos, além de restrições relacionadas ao fornecimento de recursos e financiamento.
O debate, porém, também envolve questões relacionadas à soberania nacional, ao uso de forças militares e aos limites das operações contra grupos criminosos em territórios estrangeiros.
A Human Rights Watch já manifestou preocupação com a ampliação da cooperação militar entre os Estados Unidos e países latino-americanos no combate ao crime organizado. Em relatório sobre o Equador, a organização afirmou ter documentado casos de detenções arbitrárias, tortura e ataques militares que levantaram questionamentos sobre a proteção de direitos humanos durante operações de segurança.
O governo americano, por sua vez, sustenta que a cooperação regional é necessária para combater organizações criminosas transnacionais que atuam além das fronteiras nacionais.
Reunião ocorre em meio a nova política de segurança regional
A reunião em Nova York representa mais uma etapa da estratégia de Washington para ampliar a cooperação em segurança na América Latina. Desde a criação do Escudo das Américas, Estados Unidos e governos parceiros vêm ampliando o compartilhamento de inteligência e a realização de operações conjuntas.
A iniciativa também ocorre em meio à intensificação das ações militares americanas contra embarcações suspeitas de transportar drogas no Caribe e no Pacífico. A Reuters informou que Trump voltou a defender uma postura mais agressiva contra os cartéis durante seu discurso na ONU.
A discussão sobre a classificação de organizações criminosas como terroristas deverá permanecer entre os principais pontos de divergência entre os países que aderiram à estratégia americana e governos que defendem uma abordagem predominantemente policial e judicial para o combate ao crime organizado.

Fontes utilizadas e consultadas:
Reuters — cobertura da reunião dos aliados do Escudo das Américas e do discurso de Donald Trump na Assembleia Geral da ONU.
Casa Branca — proclamação de 7 de março de 2026 sobre o combate aos cartéis e criação da coalizão regional.
UOL — informações sobre a reunião dos países do Escudo das Américas em Nova York durante a Assembleia Geral da ONU.
CNN Brasil — informações sobre a classificação de grupos latino-americanos pelos Estados Unidos e sobre o Escudo das Américas.
Human Rights Watch — relatório sobre a cooperação de segurança entre Estados Unidos e Equador e seus impactos sobre direitos humanos.
