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Estudo aponta que elefantes africanos podem usar plantas medicinais para tratar doenças

Pesquisa realizada na região do Monte Elgon, no Quênia, identificou 35 espécies de plantas associadas a possíveis comportamentos de automedicação entre elefantes africanos; 25 delas são reconhecidas por moradores locais por seus usos medicinais

Estudo aponta que elefantes africanos podem usar plantas medicinais para tratar doenças
Elefantes caminhando por campo — Foto: Unsplash

Por Prime Rádio - Um estudo publicado nesta quarta-feira (24) na revista científica Scientific Reports encontrou evidências de que elefantes-africanos (Loxodonta africana) podem selecionar determinadas plantas quando apresentam problemas de saúde. A pesquisa foi realizada na região do Monte Elgon, no Quênia, e reuniu relatos de oito especialistas locais da comunidade indígena Sabaot, incluindo guardas florestais, antigos agentes de proteção e anciãos.




Os pesquisadores identificaram 35 espécies de plantas pertencentes a 23 famílias botânicas que fazem parte da alimentação dos elefantes na região e que foram associadas pelos entrevistados a possíveis funções medicinais. Além das plantas, quatro tipos de recursos minerais, solos ou argilas também foram mencionados.


Dos 39 recursos analisados, 34 eram conhecidos localmente por algum uso medicinal tradicional em seres humanos. Entre eles, 25 foram apontados especificamente pelos entrevistados como recursos utilizados pelos próprios elefantes com finalidade medicinal.


Comportamentos associados à automedicação


O estudo classificou os recursos de acordo com o grau de evidência fornecido pelos relatos. Em oito espécies de plantas, os pesquisadores encontraram relatos considerados mais consistentes com um possível comportamento terapêutico: os recursos teriam sido procurados ou oferecidos a elefantes doentes ou vulneráveis com uma finalidade medicinal específica.


Entre as espécies citadas estão Aloe arborescens, Bersama abyssinica, Coleus barbatus, Dombeya burgessiae, Dombeya rotundifolia, Dombeya torrida, Ficus natalensis e Kuloa usambarensis.


Os relatos também descrevem comportamentos envolvendo filhotes. Segundo os participantes, fêmeas teriam oferecido algumas dessas plantas aos filhotes ou misturado determinados vegetais ao leite. Entre os exemplos estão Coleus barbatus, Ficus natalensis e Bersama abyssinica. Os pesquisadores, porém, ressaltam que interpretar comportamentos de automedicação em animais selvagens é uma tarefa complexa.


Folhas, cascas e raízes


A pesquisa registrou diferentes partes das plantas consumidas pelos elefantes. Folhas e cascas apareceram entre as partes mais frequentemente mencionadas, seguidas pelas raízes. Também foram relatados o consumo de sementes, brotos, galhos e outras partes das plantas.


Os pesquisadores compararam ainda os relatos sobre os elefantes com informações existentes na literatura científica sobre os usos medicinais das plantas. Entre as espécies mais frequentemente citadas pelos participantes, nove já possuíam registros de utilização medicinal tradicional e propriedades farmacológicas documentadas na literatura consultada.


Evidência ainda é considerada indicativa


Apesar dos resultados, o estudo não afirma que os elefantes definitivamente "sabem" quais plantas funcionam como medicamentos. Os autores utilizam termos como "possível automedicação" porque grande parte das evidências foi obtida por meio de entrevistas com pessoas que observaram os animais e possuem conhecimento tradicional sobre a flora local.


Os pesquisadores destacam que ainda é difícil determinar, apenas pela observação, se um elefante consome determinada planta por suas propriedades terapêuticas ou por outras razões relacionadas à alimentação. A combinação entre observações de campo, conhecimento indígena e dados farmacológicos, contudo, sugere que os animais podem apresentar um repertório medicinal mais diversificado do que se reconhecia anteriormente.


O trabalho também reforça a importância do conhecimento tradicional das comunidades que convivem com os elefantes. De acordo com os pesquisadores, moradores da região relataram que parte de seus conhecimentos sobre determinadas plantas medicinais pode estar relacionada à observação do comportamento dos próprios elefantes.


Pesquisas anteriores


A possibilidade de elefantes utilizarem plantas com finalidade medicinal não é totalmente nova na literatura científica. Estudos anteriores envolvendo elefantes-asiáticos em diferentes regiões da Ásia também registraram conhecimentos tradicionais relacionados ao uso de plantas para tratar problemas de saúde dos animais.


Uma pesquisa publicada no Journal of Ethnopharmacology, por exemplo, identificou 34 plantas utilizadas na medicina veterinária tradicional para elefantes no norte da Tailândia e encontrou sobreposição entre algumas dessas práticas, a medicina humana e o consumo natural das plantas pelos animais.


O novo estudo realizado no Quênia amplia esse campo de investigação para elefantes-africanos selvagens e apresenta registros de 35 espécies vegetais associadas a possíveis comportamentos de automedicação na região do Monte Elgon.


Fontes: Scientific Reports (Nature), estudo "African elephants putatively self-medicate with medicinal plants in the Mount Elgon region, Kenya", publicado em 24 de setembro de 2026; Journal of Ethnopharmacology, estudo sobre automedicação de elefantes-asiáticos e conhecimento etnoveterinário no norte da Tailândia.