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Xi volta a citar “Armadilha de Tucídides” ao discutir relação entre China e Estados Unidos

Termo popularizado pelo cientista político Graham Allison descreve o risco de conflito quando uma potência em ascensão desafia uma potência já estabelecida

Xi volta a citar “Armadilha de Tucídides” ao discutir relação entre China e Estados Unidos
O presidente chinês Xi Jinping discursa durante sua visita de Estado à Casa Branca, em Washington — Foto: Doug Mills/The New York Times

Por Prime Rádio - O presidente da China, Xi Jinping, voltou a utilizar a expressão “Armadilha de Tucídides” ao tratar da relação entre China e Estados Unidos. A referência ocorreu em 14 de maio de 2026, durante uma reunião com o presidente norte-americano Donald Trump, em Pequim.



Segundo a agência estatal chinesa Xinhua, Xi questionou se os dois países poderiam “superar a Armadilha de Tucídides” e estabelecer um novo modelo de relacionamento entre grandes potências. O líder chinês também afirmou que China e Estados Unidos deveriam trabalhar conjuntamente diante dos desafios internacionais.

A expressão não foi criada por Tucídides, historiador e general ateniense que viveu no século V a.C. O termo foi desenvolvido e popularizado décadas depois pelo cientista político norte-americano Graham Allison, professor da Universidade Harvard. Allison utilizou a experiência da Guerra do Peloponeso como referência para analisar situações nas quais uma potência em ascensão passa a desafiar uma potência dominante.

O que é a Armadilha de Tucídides

Tucídides descreveu a Guerra do Peloponeso, travada entre Atenas e Esparta entre 431 e 404 a.C. Em sua interpretação histórica, o crescimento do poder de Atenas teria provocado temor em Esparta, contribuindo para o caminho que levou ao conflito.

A partir dessa passagem, Allison formulou a chamada “Armadilha de Tucídides”. O conceito sustenta que mudanças significativas no equilíbrio de poder entre uma potência estabelecida e outra em ascensão podem aumentar o risco de confronto.

Em sua análise histórica, Allison examinou 16 episódios em que uma potência ascendente desafiou uma potência estabelecida. Segundo o levantamento apresentado por Harvard, 12 desses casos terminaram em guerra. O próprio conceito, porém, não estabelece que um conflito seja inevitável.

A expressão ganhou destaque principalmente nos debates sobre a relação entre China e Estados Unidos, à medida que o crescimento econômico, tecnológico e militar chinês passou a alterar o equilíbrio de poder internacional.

Por que Xi utiliza o termo

A referência de Xi coloca a relação sino-americana dentro desse contexto histórico de disputa entre uma potência estabelecida e outra em ascensão.

Durante o encontro de maio, o presidente chinês formulou a questão como uma possibilidade que poderia ser evitada. Em vez de afirmar que um confronto entre as duas potências seria inevitável, Xi perguntou se China e Estados Unidos seriam capazes de superar a chamada armadilha e construir um novo padrão de relacionamento.

A escolha das palavras também reforça a maneira como Pequim procura apresentar a ascensão chinesa no cenário internacional. Para especialistas ouvidos pela Universidade Cornell, a utilização do conceito está relacionada à tentativa chinesa de enquadrar a competição entre os dois países como uma questão de convivência entre grandes potências.

Xi já havia utilizado a expressão anteriormente. Em 2015, durante uma visita aos Estados Unidos, afirmou que não existia uma “Armadilha de Tucídides”. Em 2023, ao se reunir com o então líder da maioria no Senado americano, Chuck Schumer, disse que a armadilha não era inevitável e que China e Estados Unidos poderiam buscar desenvolvimento e prosperidade conjunta.

A questão de Taiwan

A menção ao conceito ocorreu em um momento em que Taiwan permanece como um dos principais pontos de divergência entre Washington e Pequim.

A China reivindica Taiwan como parte de seu território, enquanto os Estados Unidos mantêm relações não oficiais com a ilha e fornecem equipamentos militares para sua defesa. Washington reconhece o governo da República Popular da China como o único governo legal da China, mas mantém uma política de relações não oficiais com Taiwan.

Durante o encontro de maio, Xi também afirmou que a questão de Taiwan é um dos pontos mais importantes da relação entre os dois países. Segundo informações divulgadas pelo governo chinês, ele alertou que uma condução inadequada da questão poderia levar a confrontos e colocar a relação bilateral em uma situação de risco.

Especialistas consultados pela Universidade Cornell observaram que a utilização do conceito por Xi ocorreu justamente em meio às divergências sobre Taiwan, indicando que a questão permanece diretamente ligada às preocupações estratégicas entre Pequim e Washington.

A China como potência em ascensão

A utilização da “Armadilha de Tucídides” também chama atenção porque pressupõe uma mudança no equilíbrio de poder internacional.

A China tornou-se uma das principais potências econômicas, tecnológicas e militares do mundo, enquanto os Estados Unidos continuam exercendo papel central na economia, na política e na segurança internacional. Essa transformação alimentou debates acadêmicos sobre a possibilidade de a competição entre os dois países reproduzir padrões históricos de rivalidade entre grandes potências.

Harvard destaca que Allison aplicou seu conceito especificamente à relação entre China e Estados Unidos em seu livro Destined for War: Can America and China Escape Thucydides’ Trap?, publicado em 2017. A análise, entretanto, apresenta o conflito como um risco histórico que pode ser evitado, e não como um resultado inevitável.

Assim, quando Xi fala em superar a “Armadilha de Tucídides”, a expressão funciona simultaneamente como uma referência histórica e como uma forma de enquadrar a atual disputa entre Pequim e Washington como uma relação entre duas grandes potências em processo de transformação.

O conceito, contudo, permanece objeto de debate entre pesquisadores. A própria história analisada por Allison inclui casos em que mudanças no equilíbrio de poder não terminaram em guerra. Por isso, a “Armadilha de Tucídides” é utilizada principalmente como uma metáfora para discutir os riscos da rivalidade entre grandes potências, e não como uma previsão automática de conflito.


Fontes: Xinhua/Governo da República Popular da China; Harvard Kennedy School; Cornell University; Folha de S.Paulo.