Pressão do custo de vida desafia projeto de reeleição de Lula
Apesar da desaceleração recente da inflação e de indicadores positivos no mercado de trabalho, preços acumulados de alimentos e endividamento mantêm o custo de vida como uma das principais preocupações dos eleitores
26/09/2026 14:14
Por Prime Rádio - A pressão sobre o orçamento das famílias brasileiras se tornou um dos principais temas da campanha presidencial de 2026. A pouco mais de uma semana do primeiro turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenta apresentar resultados econômicos positivos de seu governo, enquanto enfrenta a percepção de parte da população de que os preços continuam elevados e que a renda perdeu poder de compra.
Uma reportagem da Reuters publicada neste sábado (26), pelo InfoMoney, descreve o impacto do custo de vida sobre consumidores e comerciantes em São Paulo. O levantamento aponta que, apesar da desaceleração recente da inflação, anos de aumento acumulado dos preços dos alimentos continuam pesando sobre os orçamentos domésticos.
Entre os entrevistados pela Reuters está Kleyton Zacarioto, de 39 anos, que trabalha em um açougue próximo ao centro histórico de São Paulo. Segundo ele, o movimento de clientes diminuiu ao longo dos anos em razão da alta dos preços dos alimentos. O trabalhador afirmou também que não pretende votar em Lula, embora reconheça aspectos positivos dos governos anteriores do presidente.
Inflação desacelera, mas preços continuam elevados
Os dados oficiais mostram uma melhora recente no ritmo de inflação. Segundo o IBGE, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou deflação de 0,32% em agosto de 2026. No acumulado de 12 meses, entretanto, o índice permanecia em 4,22%, enquanto a alta acumulada no ano era de 3,11%.
O Banco Central também aponta desaceleração da inflação. No Relatório de Política Monetária divulgado em setembro, a instituição informou que a inflação acumulada em 12 meses caiu de 4,7% em maio para 4,2% em agosto. Ao mesmo tempo, destacou que parte da redução esteve relacionada a um efeito temporário sobre a tarifa de energia elétrica e projetou aumento do ritmo de alta dos alimentos nos meses seguintes.
As expectativas dos analistas para a inflação de 2026 estão em 4,9%, segundo o Banco Central, acima da meta de 3%. Para 2027, a expectativa é de 4,3%.
Mercado de trabalho apresenta indicadores positivos
O cenário econômico também apresenta fatores favoráveis ao governo. De acordo com o Banco Central, o mercado de trabalho permanece aquecido, enquanto a atividade econômica apresenta sinais de moderação.
O IBGE registrou taxa de desemprego de 5,4% no segundo trimestre de 2026. O PIB brasileiro, por sua vez, cresceu 0,5% no segundo trimestre, depois de uma expansão de 1,1% nos três primeiros meses do ano.
O Banco Central projeta crescimento de 1,8% para a economia brasileira em 2026. A instituição também reduziu a taxa básica de juros para 13,75% após cortes realizados nas reuniões de agosto e setembro do Comitê de Política Monetária (Copom).
Percepção do consumidor permanece como desafio
A reportagem da Reuters destaca uma diferença entre os indicadores macroeconômicos e a percepção de parte da população. Segundo pesquisa Quaest citada na publicação, quase metade dos brasileiros afirmou, em setembro, que a economia havia piorado no último ano, enquanto 19% disseram que ela havia melhorado.
A avaliação é influenciada, entre outros fatores, pelo preço dos alimentos e pelo comprometimento da renda com dívidas. Dados do Banco Central citados pela Reuters mostram que o comprometimento da renda das famílias com o pagamento de dívidas, sem considerar financiamentos imobiliários, chegou a 26,6% em junho, o maior nível da série mencionada na reportagem.
O cenário coloca o custo de vida no centro do debate eleitoral. A campanha de Lula tem destacado a desaceleração da inflação, o nível de emprego e a redução da desigualdade. Ao mesmo tempo, o presidente reconheceu em propaganda eleitoral que o custo de vida ainda representa uma dificuldade para muitas famílias e prometeu manter a inflação sob controle.
Custo dos alimentos entra no debate eleitoral
Os preços dos alimentos também passaram a ser utilizados pelos principais candidatos como argumento de campanha. Segundo a Reuters, o senador Flávio Bolsonaro transformou a perda de poder de compra em um dos temas de sua campanha, enquanto Lula tem defendido medidas relacionadas à produção agrícola, aos estoques públicos de alimentos e ao crédito rural.
A campanha de Lula também criou o site “Mercado da Mentira” para contestar afirmações de adversários sobre os preços e apresentou uma ação ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) questionando informações divulgadas pela campanha de Flávio Bolsonaro.
A disputa ocorre em um contexto no qual os indicadores de inflação apresentam melhora em relação a períodos anteriores, mas os preços acumulados continuam significativamente acima dos níveis registrados antes da pandemia. Para os eleitores, portanto, a avaliação da economia envolve não apenas a variação mensal dos índices oficiais, mas também a capacidade de pagar despesas, consumir e manter o orçamento familiar.
Fontes: Reuters/InfoMoney; Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE); Banco Central do Brasil (BCB).

