Anvisa investiga casos de cegueira súbita associados a canetas emagrecedoras
Agência analisa 13 notificações de neuropatia óptica isquêmica, uma condição rara que pode provocar perda de visão
27/09/2026 13:59
Por Prime Rádio - A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) investiga 13 notificações de casos suspeitos de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (Noiana), uma doença rara que pode provocar perda súbita da visão, em pessoas que utilizavam medicamentos da classe dos agonistas do GLP-1, popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras”. As informações foram divulgadas neste domingo (27).

Segundo levantamento realizado a pedido do g1, as notificações envolvem pacientes que utilizavam Ozempic, Wegovy, Wegovy FlexTouch, Rybelsus e Mounjaro. A Anvisa ressalta, porém, que a existência de uma notificação envolvendo o uso de determinado medicamento e a ocorrência da doença não comprova, por si só, que o remédio tenha causado o problema.
A Noiana é uma condição que afeta o nervo óptico e está relacionada à redução do fluxo sanguíneo na região. O quadro pode provocar perda repentina da visão, geralmente em um dos olhos, e a recuperação pode ser incompleta.
Entre as 13 notificações atualmente analisadas pela Anvisa, cinco estão relacionadas ao Ozempic, três ao Wegovy, duas ao Wegovy FlexTouch, duas ao Rybelsus e uma ao Mounjaro. Os medicamentos Ozempic, Wegovy e Rybelsus têm semaglutida como princípio ativo, enquanto o Mounjaro contém tirzepatida.
A preocupação com a possível associação entre semaglutida e Noiana não é recente. Em junho de 2025, a própria Anvisa informou que havia determinado a inclusão da doença como reação adversa “muito rara” nas bulas dos medicamentos à base de semaglutida. A medida ocorreu após uma avaliação do Comitê de Avaliação de Risco em Farmacovigilância da Agência Europeia de Medicamentos (EMA).
A EMA concluiu que a Noiana deve ser classificada como um efeito adverso muito raro dos medicamentos contendo semaglutida, podendo afetar até uma pessoa a cada 10 mil usuários. A agência europeia também informou que estudos epidemiológicos apontaram uma associação aproximada de duas vezes maior entre a exposição à semaglutida e o risco de Noiana em adultos com diabetes tipo 2, embora a ocorrência absoluta permaneça baixa.
As evidências científicas, entretanto, ainda apresentam limitações e resultados diferentes conforme o desenho dos estudos. Uma pesquisa publicada no JAMA Network Open analisou dados de mais de 1,5 milhão de pacientes elegíveis e, após o pareamento dos grupos, encontrou uma incidência de Noiana de 0,04% entre pacientes tratados com semaglutida ou tirzepatida, contra 0,02% no grupo de comparação. O estudo identificou uma associação estatística, mas também destacou que pesquisas anteriores apresentaram resultados inconsistentes e que fatores como diabetes, obesidade e hipertensão estão entre as condições associadas ao risco da doença.
No Brasil, a investigação da Anvisa permanece em andamento. A agência orienta que notificações de suspeitas de eventos adversos sejam analisadas dentro do sistema de farmacovigilância, justamente porque uma notificação individual não estabelece automaticamente uma relação de causa e efeito.
A Novo Nordisk, fabricante do Ozempic, Wegovy e Rybelsus, informou, segundo a apuração publicada pelo InfoMoney e pelo g1, que suas análises de ensaios clínicos não identificaram aumento de casos de Noiana associado à semaglutida. A Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, afirmou que acompanha continuamente os dados de segurança relacionados aos seus medicamentos, incluindo eventos oftalmológicos.
A recomendação da EMA é que pacientes que apresentem perda súbita da visão ou uma piora rápida da capacidade visual durante o tratamento com semaglutida procurem atendimento médico imediatamente.
É importante destacar que a investigação brasileira não significa que as canetas emagrecedoras tenham sido consideradas responsáveis pelos casos. O objetivo da farmacovigilância é justamente avaliar sinais de segurança e verificar, com base no conjunto de evidências disponíveis, se existe uma relação entre determinado medicamento e um evento adverso.

Fontes utilizadas:
Anvisa — alerta sobre a semaglutida e a neuropatia óptica
Agência Europeia de Medicamentos (EMA) — avaliação sobre Noiana e semaglutida
JAMA Network Open — estudo sobre semaglutida, tirzepatida e distúrbios do nervo óptico
InfoMoney — levantamento sobre as 13 notificações investigadas pela Anvisa
