Estudo aponta relação entre apostas online, inadimplência e redução do crédito no Brasil
Pesquisa do Insper e da Stone acompanhou novos apostadores e identificou aumento de atrasos, redução da liquidez e menor acesso ao crédito; especialistas também relacionam endividamento ao recuo no consumo das famílias
29/09/2026 16:45
Por Prime Rádio - Um estudo realizado por pesquisadores do Insper e da Stone identificou uma associação entre o início das apostas online e a deterioração de indicadores financeiros dos consumidores. Segundo a pesquisa, pessoas que começaram a apostar passaram a apresentar, em média, aumento de 19,7% na inadimplência no período de acompanhamento. Entre as dívidas de cartão de crédito, o crescimento chegou a 38,7%.

O trabalho, intitulado Online Betting and Financial Distress: Evidence from Brazil, analisou dados de clientes de uma instituição financeira e os cruzou com informações do Sistema de Informações de Crédito (SCR) do Banco Central. Os pesquisadores acompanharam principalmente pessoas que fizeram sua primeira aposta a partir de janeiro de 2025, quando entrou em vigor o novo regime de regulamentação das apostas de quota fixa no Brasil.
A metodologia procurou comparar novos apostadores com pessoas de características financeiras semelhantes que ainda não haviam começado a apostar. Dessa forma, os pesquisadores buscaram separar os efeitos associados ao início das apostas de diferenças que já existiam anteriormente entre os grupos.
Menor acesso ao crédito
Além do aumento da inadimplência, a pesquisa identificou redução no limite de crédito disponível após o início das apostas. De acordo com os resultados, o limite total de crédito concedido pelo sistema financeiro caiu aproximadamente 16% entre os novos apostadores.
Os autores avaliam que o resultado pode indicar uma reação das instituições financeiras ao comportamento observado nas contas dos clientes. O estudo também encontrou redução da liquidez disponível após o início das apostas.
Os dados mostram ainda que, nos primeiros seis meses, 90,8% dos apostadores analisados transferiram para as plataformas valores superiores aos que receberam delas. Em 82,5% dos casos, não houve recebimento de recursos provenientes das bets nesse período.
Apesar dos resultados, os pesquisadores também identificaram uma relação no sentido contrário: parte das pessoas já apresentava dificuldades financeiras antes de começar a apostar. Segundo a análise, a entrada em situação de inadimplência também aumenta a probabilidade de início das apostas, indicando que a relação entre os dois fenômenos não deve ser interpretada como uma relação exclusivamente de causa e efeito em uma única direção.
Impacto sobre o orçamento das famílias
O crescimento das apostas ocorre em um mercado que alcançou escala significativa no país. Dados citados em estudos recentes apontam que aproximadamente 25 milhões de brasileiros apostaram em plataformas autorizadas em 2025, enquanto a receita bruta do setor foi estimada em cerca de R$ 37 bilhões.
O impacto sobre o orçamento familiar também passou a ser discutido por pesquisadores e representantes do comércio. Reportagem do UOL, publicada em setembro, reuniu dados segundo os quais as apostas passaram a competir com outras despesas das famílias em um cenário de maior endividamento e utilização de crédito. O levantamento do Insper e da Stone citado pela publicação aponta novamente para aumento dos atrasos e redução do crédito entre pessoas que começaram a apostar.
No setor supermercadista, a Associação Gaúcha de Supermercados (Agas) afirmou, em dezembro de 2025, que o endividamento das famílias, associado às apostas e ao uso de crédito consignado, estaria relacionado a uma redução de aproximadamente 6% nas vendas de alimentos e outros produtos. A entidade também relatou queda no tíquete médio e substituição de produtos mais caros por alternativas de menor preço. Essa estimativa, porém, é uma declaração da associação e não corresponde diretamente ao resultado do estudo do Insper e da Stone.
O crédito consignado também apresentou forte expansão no período. Segundo levantamento da Serasa citado pela imprensa, o valor médio dos empréstimos consignados privados caiu de R$ 8,6 mil para R$ 2,3 mil, enquanto o estoque da modalidade chegou a aproximadamente R$ 110 bilhões em março de 2026, de acordo com dados do Banco Central.
Relação exige cautela na interpretação
Os resultados não significam que toda pessoa que aposta ficará inadimplente ou que as apostas sejam a única causa do endividamento. O próprio estudo identificou que dificuldades financeiras anteriores podem aumentar a probabilidade de uma pessoa começar a apostar.
Também é importante diferenciar os resultados diretamente medidos pela pesquisa das avaliações feitas por entidades do comércio. O estudo do Insper e da Stone analisou principalmente apostas, inadimplência, liquidez e acesso ao crédito. Já a relação entre apostas, crédito consignado e redução das compras em supermercados envolve outras pesquisas e declarações de representantes do setor.
O cenário descrito pelos diferentes levantamentos indica, portanto, uma combinação de fatores que pode afetar o orçamento das famílias: utilização de crédito, comprometimento da renda, atrasos em pagamentos e destinação de parte dos recursos para apostas online. A dimensão e a direção dessas relações continuam sendo objeto de análise econômica.

Fontes consultadas: Insper/Stone, dados do Banco Central citados no estudo; Folha de S.Paulo; CNN Brasil; UOL; Tendências Consultoria; Associação Gaúcha de Supermercados (Agas).
