PGR arquiva pedido para investigar suposta interferência dos EUA nas eleições, mas PF mantém apuração
Procuradoria considerou que não havia elementos mínimos para abrir inquérito; Polícia Federal decidiu analisar o caso após pedido da AGU
07/10/2026 16:59
Por Prime Rádio - A Procuradoria-Geral da República (PGR) arquivou o pedido apresentado pela Advocacia-Geral da União (AGU) para investigar uma possível interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras de 2026. Segundo a Procuradoria, a representação não apresentava elementos mínimos que justificassem a abertura de um inquérito naquele momento.

A decisão foi tomada pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, após a AGU solicitar que fossem apuradas informações sobre um suposto financiamento do governo norte-americano a iniciativas contrárias à atuação do Supremo Tribunal Federal (STF).
O pedido da AGU teve como ponto de partida uma reportagem do jornal britânico The Guardian, publicada no fim de setembro. Segundo a publicação, o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, teria destinado US$ 1 milhão, provenientes de um fundo ligado a direitos humanos e democracia, a um projeto denominado “Countering Lawfare and Censorship in Brazil” — em português, “Combate ao Lawfare e à Censura no Brasil”.
A AGU havia acionado tanto a PGR quanto a Polícia Federal para verificar se os recursos poderiam estar relacionados a uma eventual atuação estrangeira sobre o processo político e eleitoral brasileiro. O órgão argumentou que, caso fosse comprovada a utilização de recursos estrangeiros para interferir em assuntos internos do país, poderia haver indícios de ingerência externa.
PF adota entendimento diferente
Apesar do arquivamento pela PGR, a Polícia Federal decidiu seguir com uma apuração própria. O diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, afirmou em 4 de outubro que a PF havia recebido a representação da AGU e iniciado um procedimento preliminar para analisar as informações.
Segundo Rodrigues, a Diretoria de Inteligência da PF foi encarregada de analisar o material. Na ocasião, ele esclareceu que ainda não havia sido formalizada uma portaria de instauração de inquérito policial, tratando-se de uma etapa preliminar de investigação.
A divergência entre os órgãos significa que o arquivamento determinado pela PGR não encerrou a análise do assunto pela Polícia Federal.
O que motivou o pedido da AGU
A controvérsia surgiu após a divulgação de informações sobre um programa do governo norte-americano que teria previsão de US$ 1 milhão para iniciativas relacionadas a críticas ao STF e à atuação do Judiciário brasileiro.
A Agência Brasil informou que, de acordo com o The Guardian, os recursos fariam parte de um pacote maior de aproximadamente US$ 176,9 milhões destinado a diferentes projetos internacionais ligados à agenda do governo Trump. O Departamento de Estado dos EUA afirmou que os programas tinham como objetivo apoiar direitos e princípios considerados importantes pelo governo norte-americano.
A existência da previsão de recursos, entretanto, não comprova por si só que tenha ocorrido interferência nas eleições brasileiras. Esse foi um dos pontos considerados pela PGR ao avaliar o pedido apresentado pela AGU. Conforme as informações divulgadas sobre a manifestação da Procuradoria, não havia elementos concretos suficientes para justificar a abertura de uma investigação pelo Ministério Público Federal naquele momento.
Investigação não significa que interferência tenha sido comprovada
A decisão da PGR e a apuração mantida pela Polícia Federal tratam de etapas distintas. O fato de a PF analisar a hipótese não significa que uma interferência estrangeira nas eleições tenha sido comprovada.
Da mesma forma, o arquivamento pela PGR não estabelece que nenhuma irregularidade possa ter ocorrido. A manifestação considerou insuficientes os elementos apresentados naquele momento, deixando aberta a possibilidade de uma nova apuração caso surjam informações concretas sobre eventual atuação ilícita em território brasileiro.
O episódio ocorre durante o processo eleitoral de 2026 e em meio a tensões diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos. A missão de observação eleitoral da Organização dos Estados Americanos (OEA), em relatório preliminar divulgado após o primeiro turno, mencionou manifestações de autoridades estrangeiras sobre a eleição brasileira, mas não concluiu pela existência de uma interferência estrangeira comprovada no processo eleitoral.

Fontes consultadas: Agência Brasil — AGU aciona PF para apurar suposto repasse de Trump a ações contra STF; Reuters — PF abriu apuração sobre suposta interferência externa nas eleições do Brasil; CNN Brasil — Andrei diz que PF abriu investigação sobre interferência dos EUA na eleição; Folha de S.Paulo — PF abre procedimento prévio a pedido da AGU.
